Como estabelecer um prazo para algo novo, jamais feito antes, tornar-se realidade? Somente arbitrando (inventando) um, a título de mera referência estimulante. A cenoura na frente do cavalo. Em atividades disruptivas, metas existem para serem descumpridas!
A seguir, em aspas, minha cabeça ao fim de 2019.
Enquanto 40% da população da Coréia do Sul abaixo de 30 anos possui “criptos” como único investimento e patrimônio (2024), por diversas outras métricas atuais estamos nitidamente atrasados.
Mas não muito…
“Estimativa de Adoção Universal da Web3 (usando a Web 1 como base)
Para estimar o tempo de adoção e consolidação de blockchains (Web3) como infraestrutura da economia global, podemos usar a evolução da internet (Web1) como referência e aplicar uma abordagem baseada em curvas de adoção tecnológica, como o modelo de difusão da inovação de Rogers. Esse modelo divide a adoção em cinco categorias: inovadores, adotantes iniciais, maioria inicial, maioria tardia e retardatários.
Podemos também considerar fatores como:
- Tempo de maturação tecnológica: O tempo que levou para a internet ir de uma tecnologia experimental (Web1) para uma adoção mainstream.
- Difusão e escala: A velocidade com que blockchains estão sendo adotadas por diferentes setores.
- Crescimento de infraestrutura: A criação de redes, regulamentações, interoperabilidade e desenvolvimento de aplicações.
- Barreiras regulatórias e culturais: O impacto das regulamentações globais e o nível de resistência social e empresarial à adoção da tecnologia.
1. Modelo Baseado na Adoção da Internet
Dados de referência da Internet (Web1)
A internet começou a ser desenvolvida nos anos 1960 (ARPANET), mas sua adoção mainstream começou nos anos 1990, com a popularização da World Wide Web (Web1) e o crescimento massivo na década de 2000. Podemos identificar três fases principais:
- Inovação (anos 60 – 80): Desenvolvimento de ARPANET e protocolos fundamentais.
- Primeira adoção (anos 90): A internet passa a ser usada comercialmente com a Web1.
- Adoção em massa (anos 2000 – 2010): A internet se torna mainstream, com a maior parte da economia global adotando a tecnologia.
O tempo total desde a inovação até a adoção mainstream foi de cerca de 30 a 40 anos.
2. Curva de Adoção para Blockchains
Para blockchains (Web3), podemos traçar um caminho similar, estimando o tempo que levará para a tecnologia se consolidar como infraestrutura da economia global. Vamos dividir o processo em fases, aplicando o modelo de Rogers e considerando que a Web3 já está no estágio de adoção inicial:
Estágios do ciclo de adoção (adaptado para Web3):
- Inovadores (2008-2015):
- 2008: Criação do Bitcoin (Blockchain 1.0).
- 2015: Surgimento da Ethereum (Blockchain 2.0), que introduz contratos inteligentes.
- Adotantes Iniciais (2016-2023):
- Expansão dos contratos inteligentes, surgimento de NFTs, DeFi e outras soluções descentralizadas.
- Grandes empresas começam a experimentar a tecnologia.
- Maioria Inicial (2024-2030):
- Espera-se um crescimento significativo de usuários e adoção de blockchain em setores como finanças, supply chain e gerenciamento de identidades.
- Crescente integração com regulamentações e instituições financeiras.
- Maioria Tardia (2031-2040):
- Adoção em massa de blockchains como infraestrutura da economia global.
- Governos, grandes corporações e indústrias inteiras utilizando blockchains para diversas aplicações, incluindo moedas digitais de bancos centrais (CBDCs).
- Retardatários (2041 em diante):
- Adoção por organizações e regiões mais conservadoras, bem como a eventual substituição de sistemas legacy.
3. Fatores de Aceleração ou Retardo
Existem elementos que podem acelerar ou retardar essa adoção:
Aceleradores:
- Desenvolvimento de tecnologia e interoperabilidade: Progresso rápido em protocolos interoperáveis, aumento da escalabilidade e soluções de Layer 2 podem acelerar a adoção.
- Criptomoedas como reservas de valor: O reconhecimento de criptoativos como reserva de valor ou moeda global pode acelerar a integração de blockchains na economia.
- Adoção por grandes players: Se grandes empresas (como Microsoft, Google, e Amazon) e governos liderarem projetos de blockchain, a curva de adoção pode se acelerar.
Retardatários:
- Regulamentações rígidas: Barreiras regulatórias podem atrasar a adoção de blockchains, especialmente no setor financeiro.
- Conservadorismo cultural: A resistência de empresas tradicionais e partes da sociedade pode prolongar a fase de adoção da maioria tardia.
4. Implementação do Modelo
Podemos usar um modelo matemático de adoção, como a curva logística (curva em S), para estimar o tempo necessário para a consolidação da Web3. A curva logística descreve como a adoção cresce rapidamente no início, desacelera ao atingir um ponto crítico (geralmente na fase de maioria inicial), e se estabiliza quando a tecnologia atinge maturidade completa.
Função logística para adoção tecnológica: A função logística é dada por:
A(t) = K / [1+e*-r(t−t0)]
Onde:
- A(t) é a fração da população que adotou a tecnologia no tempo ttt.
- K é a capacidade total do mercado (por exemplo, 100% de adoção).
- r é a taxa de adoção.
- t0 é o ponto no tempo em que 50% da adoção foi alcançada.
Com base na história da internet, podemos supor que o ponto de inflexão (t0t_0t0) para Web3 ocorrerá por volta de 2030, quando a adoção deve atingir 50%. A partir desse ponto, a curva de adoção começa a desacelerar até atingir saturação em torno de 2040.
5. Exemplo de Cálculo
A seguir, um código simplificado em Python para calcular o tempo de adoção da Web3 com base nesse modelo logístico:
pythonCopiar códigoimport numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt
# Parâmetros do modelo
K = 100 # Adoção máxima (100%)
r = 0.15 # Taxa de adoção (ajustar conforme necessário)
t0 = 2030 # Ano de ponto médio de adoção (50%)
t = np.linspace(2020, 2050, 100) # Período de tempo de simulação (2020 a 2050)
# Função logística de adoção
A = K / (1 + np.exp(-r * (t - t0)))
# Plotando a curva de adoção
plt.figure(figsize=(10, 6))
plt.plot(t, A, label='Adoção de Web3 (Blockchain)')
plt.axvline(x=t0, color='r', linestyle='--', label='Ponto de Inflexão (50%)')
plt.title('Curva de Adoção de Web3 como Infraestrutura Global')
plt.xlabel('Ano')
plt.ylabel('Adoção (%)')
plt.legend()
plt.grid(True)
plt.show()
6. Conclusão
Com base no histórico da internet, esperamos que a Web3 atinja adoção mainstream global em torno de 2030 a 2040, com o ponto de inflexão ocorrendo perto de 2030, quando a maioria inicial começa a adotar a tecnologia. Blockchains, como infraestrutura da economia global, podem começar a substituir ou integrar-se aos sistemas financeiros e de dados existentes por volta de 2040, com adoção completa pelos retardatários estendendo-se além disso.
Essas estimativas são ajustáveis conforme evoluções tecnológicas, regulatórias e socioeconômicas.”
Onde estamos de fato (2024)
A adoção de blockchains e da Web3 em 2024 está em um estágio de crescimento robusto, com várias iniciativas e tendências apontando para a consolidação dessa tecnologia no cenário global. Abaixo estão alguns dos aspectos e dados animadores sobre o desenvolvimento desse setor:
1. Adoção por Gerações Mais Jovens:
- Coreia do Sul: Uma pesquisa de 2023 mostrou que cerca de 40% dos jovens sul-coreanos (na faixa etária de 20 a 39 anos) possuem algum tipo de criptomoeda (e a quase totalidade deles não possui nenhum outro tipo de patrimônio). A Coreia do Sul é um dos países líderes na adoção de tecnologia, com um mercado cripto vibrante, onde plataformas locais como Upbit e Bithumb desempenham papéis significativos.
- Brasil: No Brasil, a adoção de criptomoedas também tem sido expressiva entre os jovens. Uma pesquisa realizada pela empresa de pagamentos PicPay em 2023 revelou que 44% dos brasileiros entre 18 e 34 anos já investem ou têm interesse em investir em criptomoedas. Além disso, o mercado cripto no Brasil cresce incentivado por fintechs e pelo aumento da acessibilidade.
2. Crescimento de Redes Blockchain (L1):
- As principais redes de blockchain de primeira camada (L1), como Ethereum, Solana, Avalanche e Binance Smart Chain, apresentam um crescimento significativo em termos de tráfego e adoção de usuários. Em 2023 e 2024, o número de endereços ativos diários nessas blockchains atingiu novos picos, com Ethereum liderando com mais de 1 milhão de endereços ativos diários.
- Solana, conhecida por sua alta velocidade e baixas taxas, tem visto um aumento de quase 300% no volume de transações em 2023, com um crescimento constante em DeFi (finanças descentralizadas), NFTs e jogos baseados em blockchain.
- O aumento do uso de Layer 2 como Arbitrum e Optimism, que aliviam a congestão em blockchains como Ethereum, também impulsionou a adoção da Web3, reduzindo custos e ampliando a acessibilidade.
3. Iniciativas Governamentais:
- União Europeia: O regulamento de Mercados de Criptoativos (MiCA), aprovado em 2023, oferece uma estrutura regulatória clara para criptomoedas e ativos digitais em todos os 27 estados-membros. Esse movimento pretende tornar a UE um ambiente seguro e regulado para negócios Web3, incentivando a adoção institucional.
- Brasil: Em 2024, o Brasil avançou significativamente na regulamentação de criptomoedas com a aprovação de um marco regulatório para ativos digitais, aumentando a confiança dos investidores. Além disso, o Banco Central do Brasil está testando um Real Digital, versão digital da moeda brasileira, dentro de uma estratégia para integrar a economia ao mundo das finanças digitais.
- China: Apesar das restrições severas às criptomoedas, o país tem sido líder na adoção de Moeda Digital do Banco Central (CBDC) com o yuan digital. Já em circulação, o projeto está sendo testado em várias regiões metropolitanas, com mais de 500 milhões de transações registradas até 2023.
- El Salvador: Em 2021, El Salvador foi o primeiro país a adotar o Bitcoin como moeda legal, e desde então o governo tem avançado com a construção de infraestruturas digitais baseadas em blockchain, como a Bitcoin City, que visa atrair investidores e empresas para o país.
4. DeFi e NFTs:
- O setor de finanças descentralizadas (DeFi) continua a crescer, com o valor total bloqueado (TVL) em protocolos DeFi atingindo mais de $120 bilhões em 2024, mostrando uma recuperação e expansão após o bear market de 2022.
- O mercado de NFTs também segue evoluindo, com novas utilidades sendo exploradas, como títulos digitais de propriedade, arte, música e, mais recentemente, identidades digitais descentralizadas. Estima-se que o volume de transações de NFTs tenha aumentado mais de 150% em 2024 em comparação a 2022, com novos casos de uso impulsionando o mercado.
5. Iniciativas Corporativas:
- Grandes empresas de tecnologia, como Google, Meta e Microsoft, continuam a explorar e investir em Web3, blockchain e metaverso. A integração de soluções blockchain em Web2 tem se tornado cada vez mais comum, como programas de fidelidade baseados em NFTs, micropagamentos em cripto e identidade digital descentralizada.
6. Crescimento de Infraestrutura Web3:
- O crescimento de infraestrutura Web3, como plataformas de oráculos (ex: Chainlink), provedores de serviços de armazenamento descentralizado (ex: Filecoin), e redes de computação descentralizada (ex: Golem), tem facilitado a transição de uma Internet centralizada (Web2) para a Web3. O número de desenvolvedores Web3 em todo o mundo aumentou significativamente, ultrapassando os 25 mil desenvolvedores ativos mensais em 2023.
7. Educação e Inclusão Digital:
- Países emergentes, como Índia e Nigéria, estão se destacando na inclusão digital por meio de blockchains. O crescimento das carteiras digitais e do uso de criptomoedas nesses países é impressionante. Em 2023, 40% da população nigeriana já utilizava criptomoedas em algum nível, muitas vezes como uma alternativa ao sistema bancário tradicional, que tem altos custos e baixa acessibilidade.
Conclusão
A adoção de blockchains e da Web3 em 2024 está em um estágio dinâmico e promissor. Com a crescente adoção por parte das gerações mais jovens, iniciativas governamentais estratégicas e o contínuo crescimento da infraestrutura digital, a Web3 está se consolidando como uma alternativa viável aos sistemas tradicionais. Ao mesmo tempo, o setor está amadurecendo com regulações mais claras, impulsionando a confiança de investidores e instituições no potencial dessa nova era da Internet.
Perspectiva (big picture)
A adoção mainstream de blockchains e Web3 ainda está em seus estágios iniciais, mas é possível estabelecer comparações entre o uso atual e as projeções para quando essas tecnologias se tornarem amplamente difundidas, a ponto de a economia global depender delas.
1. Transações de Smart Contracts Hoje x Adoção Mainstream:
- Atualmente, as transações diárias em blockchains que utilizam smart contracts (como Ethereum, Solana, Binance Smart Chain, entre outras) estão em torno de 1,5 a 2 milhões de transações diárias combinadas nas principais redes. A maior parte dessas transações está concentrada em Ethereum, que tem aproximadamente 1 milhão de transações diárias, seguida de Solana e Binance Smart Chain, cada uma com centenas de milhares de transações diárias.
- Se a economia global fosse amplamente dependente de smart contracts para atividades como pagamentos, processamento de contratos legais, transações financeiras, logística e governança digital, o número de transações precisaria ser significativamente maior. Estimativas indicam que a adoção em escala mundial poderia ver dezenas de bilhões de transações diárias. Para uma comparação, o sistema de pagamentos tradicional Visa processa cerca de 150 milhões de transações por dia, e isso apenas em termos de pagamentos. Ao considerar todas as atividades econômicas e comerciais, o número de transações dependentes de contratos inteligentes seria muito maior.
- Se considerarmos a automação de processos via DeFi, logística em blockchain (ex: tracking de produtos), registros governamentais e sistemas de identidade digital descentralizada, o volume de transações em blockchains precisaria suportar não apenas o fluxo financeiro, mas praticamente todos os setores da economia, como infraestrutura, saúde e até mesmo processos administrativos e burocráticos.

2. Capacidade Atual das Redes e Necessidade de Escalabilidade:
- Ethereum, a principal rede de smart contracts, pode processar atualmente cerca de 15-30 transações por segundo (TPS), dependendo das condições da rede. Solana, por outro lado, consegue processar mais de 3.000 TPS em condições normais, o que lhe dá uma vantagem significativa em termos de escalabilidade. Entretanto, essas capacidades ainda estão longe do que seria necessário para sustentar uma economia global.
- Para alcançar a adoção mainstream, seria necessário um aumento massivo na capacidade das redes, tanto em termos de throughput quanto de eficiência energética. Soluções de camada 2 (L2), como Arbitrum, Optimism e ZK-rollups, já estão em desenvolvimento para aumentar a capacidade de processamento de redes como Ethereum, mas ainda existem desafios de escalabilidade a serem superados. A projeção é que, para atender à demanda global, as blockchains teriam que ser capazes de processar milhões de TPS de forma consistente e segura.
3. Infraestrutura de Suporte e Integração:
- A infraestrutura necessária para suportar a adoção mainstream também precisaria expandir consideravelmente. Hoje, a maioria das plataformas DeFi, dApps (aplicativos descentralizados) e NFTs está concentrada em alguns poucos ecossistemas (Ethereum, Solana, Binance Smart Chain, etc.). Para um cenário de adoção global, seria necessário que milhões de dApps fossem integrados à economia global, com uma interoperabilidade perfeita entre várias blockchains, possibilitada por soluções como cross-chain bridges e oráculos (ex: Chainlink) que conectam blockchains a dados do mundo real.
- A usabilidade também é um fator chave. Para que blockchains e Web3 se tornem mainstream, a experiência do usuário precisaria ser significativamente simplificada, de modo que milhões de pessoas possam interagir com essa tecnologia sem a necessidade de entender as complexidades das carteiras digitais, endereços de blockchain, ou conceitos técnicos como gás (taxas de transação). Iniciativas para melhorar a experiência do usuário (UX), como endereço de carteira legíveis e integração direta com sistemas financeiros tradicionais, estão sendo desenvolvidas, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
4. Comparação com Infraestruturas Tradicionais:
- No mundo financeiro tradicional, a infraestrutura que dá suporte ao sistema bancário global e a plataformas de pagamentos, como Visa, SWIFT e PayPal, processa bilhões de transações diárias. Um estudo de 2022 estimou que o sistema financeiro global realiza cerca de 300 bilhões de transações por ano, o que equivale a 800 milhões de transações diárias. Comparativamente, as blockchains ainda estão em uma fração desse volume, mas a tendência é que essas tecnologias avancem, especialmente com o aumento da confiança em DeFi, CBDCs (moedas digitais de bancos centrais) e outras inovações.
5. Impacto das Iniciativas Governamentais e Corporativas:
- A adoção mainstream depende muito de integração com as infraestruturas tradicionais e de apoio governamental. Iniciativas como a do Real Digital no Brasil, yuan digital na China e MiCA na União Europeia são indicativos de que a regulamentação e a infraestrutura de suporte estão sendo estabelecidas para que o blockchain possa ser parte da economia global em larga escala.
- Além disso, grandes corporações estão integrando soluções Web3, como o uso de blockchains privadas ou híbridas para logística, contratos e rastreamento de ativos. À medida que mais empresas adotam essas tecnologias, a necessidade de blockchains escaláveis crescerá, impulsionando a transição para a adoção em massa.
Conclusão
A adoção mainstream de blockchains e Web3 exigirá uma infraestrutura muito mais robusta do que a atual, tanto em termos de capacidade de transações quanto de usabilidade e integração com sistemas legados. Hoje, a economia baseada em contratos inteligentes está em uma fração do que seria necessário para suportar o sistema financeiro global e outras áreas econômicas, mas o crescimento exponencial em transações, usuários e inovações aponta para uma eventual transição para essa nova realidade.