Em meio a expectativas de amigos argentinos acerca da eleição em seu país de origem, daqui há duas semanas, e a ressaca de uma reflexão humanista sobre o imoral Sam Bankman-Fried, descascada um pouco ontem aqui, começo a semana recordando-me de uma história surreal da teoria econômica ocidental. É interessante a natureza das associações que a memória humana é capaz de fazer, se a deixamos correr solta.
O personagem a seguir foi primeiro apresentado-me, superficialmente, durante o curso de graduação. Anos atrás, porém, voltei a nele esbarrar, numa das várias alegorias suplementares e fantásticas do incrível livro The Company: A Short History of a Revolutionary Idea (John Micklethwait e Adrien Wooldridge), o qual revisitei para escrever este texto.
Trata-se simplesmente da história da maior bolha financeira já registrada no mundo (no relativo a economia), acontecida na França ao início do século dezoito. Um estrago cataclísmico cujo responsável de última instância foi um homem só, de nome John Law (1671-1729).
Descendente da aristocracia escocesa, Law passou a juventude em Londres engajado em mulheres, apostas e matemática, até que migrou para Amsterdã fugindo da punição de um crime (matou um homem em um duelo). Lá, começou a arrematar pequenas fortunas especulando num nascente – e desarbitrado – mercado de capitais, ao mesmo tempo que começava a fabricar suas teorias econômicas.
Considerado hoje o pai do papel-moeda fiduciário – uma moeda sem lastro em ouro ou prata -, não conseguiu nada ao retornar à Escócia, onde foi ignorado. Retornando mais uma vez ao continente, seu destino mudou em 1715, quando um jovem regente e velho amigo das noites de jogatina, o Duque de Orléans, sucederia Luís XIV no trono francês. Law convenceu o duque que permitisse que ele criasse um banco, o Banque Génerále, que seria o emissor de papel-moeda na França. Disse que dessa forma resgataria a França de sua inflação galopante, escassez de moeda e volatilidade financeira. Como? Emitindo o novo papel-moeda, oras.
O rei acreditou, depositando um milhão de livres da Coroa e ordenando que a arrecadação fosse feita com as novas notas. Em 1718, já com dez milhões de livres, o banco foi rebatizado para Banque Royale, enquanto esta fantástica história estava apenas começando. Controlando a oferta de moeda a seu critério, Law pediu (e levou) a concessão do monopólio comercial com a colônia francesa nas Américas, até então pertencente a Company d’Óccident, a qual rebatizou como Mississipi Company.
E daí lançou o truque: a dívida pública francesa seria convertida em ações da empresa!
Numa fração de meses, a Mississipi Company comprou os monopólios de todas as explorações comerciais de todas as colônias da então maior potencia mundial, pagando tudo com suas emissões de moeda e ao mesmo tempo emitindo ações, vendidas a todos. Para manter a hype, anunciava gordos dividendos e cotações preferenciais a acionistas antigos. Em 1719, o passivo inteiro do Estado francês seria convertido em ações dessas empresas, que juntas eram a totalidade do próprio mercado acionário e cuja atividade comercial em si ninguém naquela altura se preocupou muito em averiguar. Afinal, a Coroa estava a bordo, no mesmo barco.
Investidores de todas as províncias francesas, da Inglaterra, da Alemanha, de Genova e Veneza… Todos invadiram Paris. Law vendia ações parceladas e concedia empréstimos para tanto, emitindo mais dinheiro. Em pouco mais de um ano, segundo o livro, o M2 francês saltou de 18 mi para 2.6bi de livres.
Ao início de 1720, porém, o mercado se apavorou e a bolha estourou. Como dono da bolsa e do banco central, Law tentou contornar o pânico com suas ferramentas (e aquela perícia astuta que na época era moderna e só ele tinha), mas não houve jeito. Colapso total das ações e da moeda. Ao fim do mesmo ano, com passaporte falso em mãos, fugiu para Bruxelas; deixando para trás a França em caos.
Que história!
Nunca houve nada de novo sob o sol latino americano do século vinte. Tenho a impressão que nada na história recente de nosso continente equiparou-se a isso (e o destino da França mais adiante, no mesmo século, é sabido), mas entendidos dirão que, sob olhar mais cuidadoso, alguns episódios chegaram perto.
Não duvido, mas não importa. Estamos aos poucos superando os mesmos erros, e assim diminuindo as defasagens.
Boa sorte aos argentinos.