A Grande Beleza do Surfista (do Leblon)

A vida não tem propósito nenhum, mas não é proibido inventá-la algum.

Este adágio, popularmente atribuido a Jean-Paul Sartre, justificaria de forma simples e honesta a construção do surfista dentro de você, amigo leitor.

Não aquele surfista que surfa suas ondas – seja por labuta da profissão, seja por ocasião de um feriado, seja por tudo mais no meio – mas aquele que, na falência de todos os seus outros avatares, sequestrou vossa autoimagem num culto extremista, onde “o inferno são os outros” (novamente Sartre) possíveis avatares.

Digo isso tanto por evidência anedótica, sendo eu mesmo criador de uma obra de surfe de nome “A Vida Que Eu Queria“, quanto por evidência estatística, isto é, apoiado naquilo que todos já sabem através de tantos metadados da vida digital que, não obstante ao que você articule a você mesmo, revelam como você de fato quer e precisa sentir-se; ou ser visto.

De fato, o despretensioso ato de deslizar sobre as ondas, em dança com a natureza, parece ser uma das coisas mais belas das quais somos capazes. Assim, do esporte ou prática em si, não caberia qualquer comentário profano. Mas a vaidade humana é danada, subverte tudo. Quando a dosagem narrativa passa do remédio ao veneno, quando reconhecimento passa a ser o propósito, e quando a igreja se torna maior que o próprio Deus, o enredo é tudo menos despretensioso.

Constata-se

Em qualquer pico de surfe metropolitano atualmente, há no line-up mais surfistas de quarenta e tal do que surfistas adolescentes. Por um lado, parece uma benção que minha geração tenha, seja lá por que razão, reforçado – ao invés de diluído – sua relação com o surfe ao longo da vida. Aliás, de certa forma, isso corrobora a ideia tecno-otimista de que no século 22, com abundância de recursos, o homem moderno viverá mais como os indígenas, cuja noção de ocupução pessoal e identidade social não se apoia em valores mercantis, mas sim em expressões culturais.

Por outro lado, ainda assim somos somente humanos erráticos, e não surpreendem as evidências patológicas: a busca sem limite por reconhecimento (digital) dos pares, tanto como ocorre em outros nichos, e a infantilização orgulhosa de si mesmo, tanto como a de adultos que vão a Disney sem crianças ou pais de pets, sugerem certa doença do indivíduo. Trabalho remoto, rentismo e morte dos boomers (transferência de renda para os millenials) ou a sistemática fragilização de horizontes e destruição de carreiras por tsunamis tecnológicos, com frustrações consequentes, sugerem, ao mesmo tempo, certa indução do ambiente.

O fenômeno é global. E está crowded. Abro o Instagram e vejo arrojados grommets de quarenta anos. Sou um deles.

Bem verdade é que, justiça seja feita, talvez todos estejamos, surfistas ou não, presos numa armadilha geracional onde a busca por um avatar, travestida de busca por propósito, tornou-se caótica, embora certos anseios e vicissitudes sejam, acima de tudo e paradoxalmente, inerentes à condição humana.

Minha tia

Pensei nisso ao saber do falecimento de Thereza Helena, minha tia, personagem que parece invenção de cronista mas foi uma pessoa real. Nunca trabalhou, nunca adoeceu, nunca se casou. Nunca se aborreceu muito, creio. Custeada por pensão do pai, viveu como rica, movida pelo único esforço de aparentar ser riquíssima, muito mais do que de fato era. Bebeu mais champange do que sucos, comeu mais doces do que verduras. Ignorou conselhos médicos com a mesma cara dura que ignorou cobranças judiciais, na maioria por dívidas de cartão por compras em lojas de grife. Materialista, comprava tudo que lhe parecia sinônimo de status, com o paladar mais refinado e sentido mais superficial do que possa o leitor imaginar.

Thereza Helena morreu como sempre soube-se que morreria: impune. Lúcida, ativa, magra e bela, teve um peripaque indolor que só chegou tarde (a cinco anos de alcançar um centenário de vida), num apartamento alugado de 300m2 onde vivia sozinha, acompanhada de belíssimas peças de antiquários, dois empregados e ocasionais visitas de amigas de chá, que nos últimos anos se tornavam raras, se as outras é que morriam. Não deixou filhos, obra ou quaisquer arrependimentos. Tampouco levou consigo qualquer peso nas queixas de seus credores, nem mesmo o do maior deles, o leão da Receita Federal, que ali jamais mordeu nada.

Seria isso uma vida bem vivida?

Lembro de passar a adolescência fazendo a mim mesmo tal pergunta, entre visitas a minha tia e sessões de surfe ali mesmo, no Leblon, onde o culto do “surfista local” ao status de si próprio num bairro imaginário contrasta à má qualidade das ondas em nível tão grotesco que, como dizia um amigo estrangeiro (e só anos depois enxerguei), parecia que fazia questão de surfar tão mal, ao mesmo tempo que gritava por ser tão surfista.

Em retrospecto, guardo do Leblon onde nasci muita saudade, e do mesmo Leblon onde estendi-me a sensação de tempo perdido, ou auto-engano, talvez nos mesmos termos de Thereza Helena que, mesmo em sua própria régua, a da elegância, viveu uma mentira, se de elegante só teve a casca.

Uma vez em Roma, faça como quem?

O filme A Grande Beleza (La Grande Bellezza, 2013), dirigido por Paolo Sorrentino, é uma provocação profunda sobre a superficialidade, o vazio existencial e a busca por significado em meio à decadência de uma sociedade obcecada por beleza, status e hedonismo. De bode expiatório para toda modernidade ocidental, a cidade de Roma é retratada como quase um personagem em si, com sua beleza monumental e substância histórica épica em contraste à frivolidade da rotina de seus mais privilegiados habitantes, uma “elite” romana que vive imersa em excessos, festas glamorosas e aparências, mas é incapaz de encontrar autenticidade ou propósito.

Sorrentino desafia o espectador a questionar o que constitui uma vida bem vivida, e se a beleza, em suas formas mais efêmeras ou transcendentais, pode redimir a banalidade da existência.

O filme segue Jep Gambardella (Toni Servillo), um escritor e jornalista de 65 anos que, após o sucesso de seu único romance décadas antes, se tornou uma figura central na alta sociedade de Roma. Jep vive uma vida de festas opulentas, conversas cínicas e relações fugazes, mas seu aniversário de 65 anos o leva a refletir sobre o vazio de sua existência. Ele começa a questionar o valor de sua rotina hedonista e busca algo mais profundo — seja na arte, na espiritualidade ou nas memórias de um amor perdido da juventude.

Sorrentino adota, propositalmente, uma narrativa pouco linear e mais como um mosaico de episódios, imagens e diálogos que misturam sátira, melancolia e surrealismo. Cínico e excêntrico, Jep vive entre artistas pretensiosos, aristocratas decadentes e clérigos ambíguos, reforçando a sensação de uma cidade — e uma cultura — em declínio. Todos os personagens coadjuvantes são incríveis metáforas psicanalíticas: um mágico que faz sumir uma girafa, um homem que tem a chave de todos os museus e mais belos prédios de Roma, um pai de uma stripper de quarenta anos falando como preocupado pai de atleta. Ao longo do enredo, o protagonista tenta conciliar sua nostalgia por momentos de verdadeira beleza (como o amor da juventude) com o diagnóstico de uma vida que, de repente, parece grosseiramente desperdiçada.

Um clímax se dá quando uma anciã missionária católica, prestes a ser santificada pelo Vaticano, pergunta ao protagonista por que ele nunca escreveu outro livro. “Procurei pela grande beleza, mas não a encontrei”, foi a resposta. É tradição do cinema italiano satirizar o vazio das relações modernas (atemporalmente) e o ridículo da erudição cultural. Dessa vez, entretanto, talvez tenham acertado em cheio no surfista moderno, em sua imaculada escolha de vida: em tese, sobre harmonia espiritual com o oceano; na prática, uma catedral para insaciáveis seres.

Em outra cena sugestiva – o texto é implacável ao longo do filme inteiro – um jetsetter despede-se de Jep ao amanhecer, após mais um evento high society absurdista qualquer: “Adeus, meu velho amigo. Estou indo embora. Foram quarenta anos aqui. Roma me decepcionou.”

Only a surfer knows the feeling

Jacques Lacan dizia que a verdade tem estrutura de ficção, o que parece ser verdade.

Adicionaria que, assim como acontece no surfe, o formato da evolução psicanalítica do indivíduo parece ser o de baterias onde o visto são as mesmas manobras de sempre. Entretanto, a qualidade na execução das manobras varia muito entre diferentes pessoas.

De fato, o verdadeiro cinema é aquele que faz a mala nisso. Não é preciso, porém, sermos todos geniais cineastas. O surfe, talvez, empreste na prática sua destreza poética. No tocante ao surfista em si, essa seria sua grande beleza.

A maioria, porém, ainda não a encontrou. Por alguma razão, é confortável insistir onde as ondas fecham.

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