Medos e Colas

Medos e colas têm ciclos de vida. Suas fórmulas não.

Em recente entrevista ao Lex Fridman Podcast, o ex-presidente e candidato Trump foi questionado sobre sua receita para aliviar a corrosiva polarização política da sociedade estadunidense. “Well, you can get rid of these people. They are terrible, terrible people.” Ao longo de quase uma hora de conversa, na qual o apresentador declarou ser ele mesmo um indeciso simpático a pautas do republicano mas temeroso a certa postura de Trump, conforme vista em eventos como o 6 de Janeiro, o candidato rejeitou acenos ao diálogo construtivo, insistindo numa cruzada moral contra “nasty people“, “very evil people“, “internal enemies“, etc. Como alternativa, todavia, sobra ao eleitor uma candidatura que evita exposição real ao público, aposta em políticas retrógradas e antieconômicas, além de, obviamente, também estar numa cruzada do bem contra o mal, de ótica inversa. 

Nada muito estranho ao tom das eleições municipais de São Paulo e tantas outras Ocidente afora.

Nesse sentido, seguem válidas as previsões de Ray Dalio (e do Senador Palpetine, de Star Wars) sobre os atuais sinais da erosão de impérios econômicos e sistemas políticos vigentes, que ocorrem de tempos em tempos. Ainda que a pax americana seja bem mais agradável que a espada do Império Romano, ou que democracias representativas sejam mais dignas que monarquias coloniais, quaisquer realidades históricas também eram, em suas respectivas eras, o melhor possível que havia para então, sempre superadas posteriormente. Assim, num espectro histórico mais amplo, o caos político com o qual flertamos atualmente, embora inédito pareça, seria novamente a expressão de um velho padrão evolutivo, doloroso como quaisquer outros partos. 

Muitos padrões de organização social nos acompanham há milênios, como imperativos biológicos do animal social que somos. Todavia, tais constantes são por vezes menosprezadas em análises conjunturais que, como o nome diz, olham para a conjuntura do momento. Vale portanto a tentativa de desenhar um outro tipo de resumo sobre o clima político atual que, embora tão simplista quanto os demais, ao menos baseie-se em tais padrões. Aqui vamos!

Em 1864, o historiador francês Fustel de Coulanges publicou “La Cité Antique” (A Cidade Antiga), no qual analisou que tipo de cola invisível realmente permitiu a criação das primeiras sociedades, a partir de homens primitivos que haviam descoberto a vantagem de caçar juntos. Sua resposta: cultos. Aquilo que Yuval Harari, um século e meio depois, chamou de inventar narrativas sempre foi nossa verdadeira cola. 

Inicialmente, enquanto nosso conhecimento científico era praticamente nulo, crenças fabricadas pelo imaginário coletivo ocuparam a totalidade da razão humana. Assim, se você não acreditasse cem por cento em seja lá o que fosse que sua tribo acreditasse, seria simplesmente assassinado, com boa racionalidade do grupo para tanto: o mundo era hostil demais, a vida frágil demais, e meras divergências ao culto eram impagáveis luxury beliefs, se ameaçavam por tudo a perder. A partir da dinâmica de cultos, sociedades aprenderam a construir suas governanças, ao passo que indivíduos aprenderam a surfa-las. 

Tal como em outras espécies animais que vivem em grupo, alguns indivíduos nascem mais perto ou mais longe do topo social, mais ou menos vidrados nele, e também aprendem a perpetuá-lo, ao longo de gerações. Tal como na natureza, vantagens de poder sempre tiveram um preço implícito, pago ao coletivo que a permitiu. No caso humano, como os líderes alteram a própria narrativa existencial da tribo, eles detem também, automaticamente, o poder de emitir a moeda na qual pagam tal preço. De fato, durante a maior parte da história de nossas sociedades, sistemas feudais apoiaram-se em deuses e retóricas religiosas como forma de validar a distribuição concentrada (e a não redistribuição) de poderes. Deuses estes que, em contrapartida, ofereciam a plebe todo o amparo existencial necessário para explicar o sentido de suas vidas, e melhor que isso, suportar suas desgraças.

Incorre em lógica rasa e equivocada quem desconsidera o caráter natural e perspicaz – no sentido de sobrevivência da espécie – de nossas injustas trajetórias sociais. Felizmente, entretanto, sistemas vivos colapsam de tempos em tempos, tendendo-se a substituícão por arranjos melhores ou, em nosso caso, mais justos.

Simplificando, tal processo evolutivo se repetiria por vias de duas constantes. 

A primeira constante é a lenta e gradativa substituição do culto ao mítico pelo culto a razão empírica. Dito de outra forma, à medida em que o conhecimento humano é gerado e distribuído, nossas velhas ineficiências em geral tornam-se como um pouco de acetona na cola antiga. Se antes nossos consensos sociais eram crendices em sua totalidade, a medida em que essas perdem fração dele para a razão empírica, passam a se fragilizar também – enfrentando disputas com novas crenças – nas lacunas do consenso em que ainda governam.

Pense na ética implícita no subjetivo contrato social como um latifúndio imobiliario. Tensões ideológicas entre humanos ocorrem na disputa por espaços ainda não regularizados do terreno, e tornam-se mais duras nessas áreas a medida em que essas se tornam escassas. Trata-se do mesmo mecanismo que rege a psique individual de todos: se sua vida carece de grandes dramas reais, sua mente logo se encarregará de sofrer por um pequeno. E dado que cada um de nós, individualmente, é equipado com um entendimento razoável, mas limitado, sobre a razão empírica por trás de como a sociedade onde participamos realmente opera, disputas ideológicas são sempre justificadas como defesa a parte já pacificada do latifúndio ético, embora se deem sempre na outra parte, não regularizada.

Quanto a origem das disparidades de nossas limitações, isso seria mera função de inputs recebidos, numa escassez de dados que retroalimenta algoritmos próprios diferentes, produzindo sensibilidades intelectuais e capacidades analíticas diferentes. Como resultado prático, por exemplo, indivíduos mais sensíveis a questões de equidade e justiça tendem à esquerda, enquanto outros mais sensíveis a questões de liberdade individual e ordem tendem à direita. Em comum, entretanto, persiste o velho hábito de classificar crenças alheias como ameaças morais a razão empírica pacificada, e portanto à própria existência do grupo. E embora não possamos mais assassinar ninguém por isso, reação que nós mesmos já entendemos como inaceitável (fração pacificada do latifúndio), o ímpeto biológico do medo permanece, escoando sua potência conforme as novas regras permitirem.

Sob esse prisma, inclusive, faz sentido a leitura de que a verdadeira onda de puritanismo “religioso” atual em curso seria aquela surfada não por conservadores à direita, mas por progressistas à esquerda. Afinal, diante do consenso da impossibilidade intelectual de ainda recorrer-se a religião propriamente dita como justificativa do caráter inegociável de pilares ameaçados (democracia, respeito a minorias, etc), progressistas modernos apelam a fé coletiva na crença secular: sua própria interpretação sobre ameaças a conquistas morais das últimas décadas, ditas sob risco de tenebrosos retrocessos. Invoca-se assim o caça às bruxas moderno, apelidado de cancel culture. Seria o mesmo tipo de óculos pelo qual a direita enxerga, analogamente, indícios de comunismo.

De fato, ambos ou quaisquer temores podem eventualmente estar certos em algum grau, de tempos em tempos. Mas o ponto é que a primeira constante por trás dos colapsos das sociedades seria sempre no campo imaginário da moralidade: quando duas pessoas lutam até às últimas consequências pelo bem (“pela democracia”, digamos), segundo suas próprias definições, a chance de colisão uma com a outra é enorme. Afinal, numa luta contra o mal, ninguém discorda que o uso da violência é não somente permitido como necessário.

A segunda constante seria tipicamente material e tecnológica. Com o advento da inteligência científica e de novas ferramentas práticas, também alicerces escritos nas regras tornam-se obsoletos. Por exemplo, se antigamente tínhamos nossas diferenças de papéis sociais pré definidas por deuses, segundo as monarquias, a coisa mudou com o surgimento das burguesias mercantis, da mobilidade social e das democracias, conquistas amplamente celebradas mas somente produzidas por revoluções industriais. 

No limite, entretanto, revoluções industriais rápidas e avassaladoras demais atropelam consensos demais, gerando os sempre tensos vácuos temporários. Sobre o cenário digital atual, embrionado ao começo do século com a planificação do mundo da internet (o famoso livro de Thomas Friedman) e crescido na década seguinte com os algoritmos emergentes a partir das redes sociais nos smartphones (2012), cabe o ditado chinês sobre ter cuidado com o que desejamos. A diferença entre remédio e veneno é a dosagem.

Em consequência da overdose coletiva causada pelo hacking industrial de dopamina em si, mecanismo que resume a imersão digital, duas derivadas socialmente tangíveis representam bem como mudamos para continuarmos os mesmos, e como mesmo assim eventualmente nos transformaremos quase que em outro animal, destino óbvio de todas as espécies ao longo do processo evolutivo.

A primeira derivada é aquilo que Jonathan Heidt bem observa sobre celebridades e influencers, que tomaram para si o exato papel da velha nobreza no culto geral que nos governa. Há porém uma drástica diferença, graças a nova crença secular: a promessa de que, nesta nova nobreza social, qualquer um na plebe pode lá chegar. Conceitualmente, um avanço bíblico. Na prática, um sabotador e perverso incentivo geral. 

Não que a maioria tenha necessariamente passado a investir em tal objetivo. O ponto é que mesmo quem não investe teve sua percepção de sociedade comprometida: não há o amparo de que o status quo é escolha divina; não há mais fé em empreitadas árduas, que levam a vida inteira, como demandam as da burguesia tradicional. E desta tragédia grega deriva, paradoxalmente, a ascensão das teologias de prosperidade e de um novo puritanismo social, agora sim pela direita.

A segunda derivada social é o redirecionamento quasi-integral do tempo para consumo compulsivo e produção de “conteúdo digital“, termo amplo que hoje encarna a exata e perfeita definição da droga Soma, profetizada por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo. Para além de totalmente viciante, a nova commodity passa a ser o mais valioso ingrediente de fabricação das novas colas sociais que nos unem uns aos outros, como sociedades modernas. Em essência, entretanto, vale-se da manipulação dos mesmos elementos químicos de sempre.

De tão inesgotavelmente fabricado (ou arrotado) e eficientemente distribuído, o “conteúdo digital” tornou-se a matéria prima da perigosa pulverização do culto, criador da cidade antiga. Ironicamente, essa matéria-prima heterogênea tende a ser mais popular quanto menor for sua densidade, mas em geral significa nada menos que a integral digital de outputs das inquietudes humanas, remetendo ao homo homini lupus.  Sua ascenção histórica, por sua vez, remete a uma cadeia alimentar hormonal: sob o anseio de nos acomodarmos, existencialmente, sob cultos que atravessamos ao longo do tempo, a imaginação humana recorreu a arte; logo mercantilizada como entretenimento; logo mercantilizado como distração; hoje mercantilizada como vício (droga). Passamos da experiência de analisar uma imagem por horas para visualizar várias delas em minutos, e finalmente então arrastar sem digerir muitas mais para baixo (scroll), como zumbis diante pequenas telas de smartphones. De construir convicções através de livros, passamos a construí-las por poucos caracteres, que chegam ou não até nós por demanda retroalimentar, não exatamente deliberada, num processo que choca, mas só pela eficiência: em essência, a capacidade de deliberar sempre foi ilusória. 

Por tudo isso, nenhuma das campanhas eleitorais deste ano, em lugar nenhum do mundo, representa algo novo sob o sol. Em suas formas tudo é sempre novo; e em essência não. Sobre reagir com nossa essência, cabe ao cidadão inteligente não a busca por imunidade ideológica, ilusão impossível, mas o velho instinto de sobrevivência milenar, em sua versão mais fria e calculista possível. Isto é, frio sempre em seus meios, nunca seduzido em seus fins. 

Como se faz isso?

Em síntese, debater eficiências e ineficiências nas ideias alheias é um exercício produtivo a sociedade, e sinal de racionalidade individual.

Por outro lado, militar contra imoralidades e motivações sinistras de outrem é ajudar a apagar a luz da razão no fim do túnel, e sinal de que pode ser você mesmo, amigo leitor, o agente causador daquilo que mais tem medo.

Pois o medo, como se sabe, é um mecanismo de sobrevivência muito básico, com grande poder de cola. 

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