Nenhuma novidade: novas tecnologias ao mesmo tempo estendem e encurtam a adolescência
“Senhor, conceda-me castidade e continência, mas não ainda.”
A frase acima é de Santo Agostinho, e parece sugestiva no exame do crime cometido por adolescentes estudantes do tradicional colégio carioca, que leva seu nome. A nova conveniência técnica para despir colegas sem qualquer checkpoint ético, falsificando-se nudes que terminam na web, seguiu o inconsequente impulso infantil (e natural) de um grupo de meninos, deslumbrados pela mágica da novidade, a ferramenta em si.
De fato, quanto maior o poder, maior é o perigo, e a inteligência artificial pega pelo pé uma geração de pais habituados com uma certa distância segura entre o infantilismo transgressor de adolescentes e a fabricação de crimes sociais reais, previstos no código penal, que obviamente exigem punição.
Novas tecnologias encurtam exponencialmente as distâncias – sempre foi assim-, e fazem isso de forma agnóstica, para o bem e para o mal. Não a toa, o papel atemporal dos pais sempre foi o de adiantar-se na educação das chamadas questões morais, jamais abstendo-se por eventual implausibilidade técnica de potenciais delitos. Um pouco como ensinar crianças a usar armas letais, tal como sempre fizeram índios e fazendeiros.
No julgamento criminal do surreal Sam Bankman-Fried, ocorrido também nos últimos dias, a imagem desolada de seus pais, dois proeminentes professores titulares de direito em Stanford, é mais do que caricatural neste drama. Não há necessidade de recapitular o famoso caso, sobre o qual o leitor pode ler aqui. Fato é que SBF foi avassaladoramente condenado por claramente roubar milhares de seus clientes (literalmente em bilhões de dólares), e outras tipificações técnicas mais. Embora marmanjo por idade, SBF é um nerd que passou a vida imerso no mundo online e cultiva os mesmos hábitos sociais desde a adolescência.
Ao início da mega fraude, por exemplo, transferiria tokens de clientes da FTX para seu fundo proprietário “apenas” porque a primeira não conseguiu conta bancária. Sem CFO, compliance ou qualquer governança, habitou-se a entender seu caixa como infinito, e jogava video games durante reuniões importantes. Foi a juri porque recusou acordos, se acredita de fato ser inocente. Michael Lewis, autor sério e respeitado, acaba de lançar um livro a respeito, trazendo o protagonista diabólico – com o qual gastou tempo – com uma visão de muito mais nuances subjetivas (quase condescendente) do que o linchamento habitual do monstro.
O que os dois casos tem em comum? Moralmente não muito, se os estudantes cariocas são ainda adolescentes que cruzaram uma linha grave apenas de forma pontual. Na prática, todavia, há o fato dos danos serem igualmente reais, provocados por autores sem qualquer maturidade para o poder imenso que tinham em mãos, alcançado via percursos digitais onde não passaram por checkpoints éticos, sejam técnicos ou subjetivos, outrora óbvios e presentes.
Arcabouços sociais servem para proteger a sociedade de si mesma. E se família é o primeiro arcabouço do indivíduo, é muitas vezes o único orientador que sobra para o resto de suas vidas, não por acaso entendido como o mais importante. Mesmo assim, seus testes de robustez são cada vez mais severos, mesmo aos pais mais aplicados. É preciso aplicar-se ainda mais.
No ótimo livro A Economia dos Desajustados (Misfit Economy), Alexa Clay e Kyra M. Phillips constroem um padrão de semelhanças entre empreendedores disruptivos, gênios intelectuais e gângsters, traficantes ou criminosos em geral. Excetuando-se seus parâmetros éticos, diz a obra, todos seriam peixes fora d’água, malucos que enxergam seus entornos de forma diferente. Em suma, pessoas não cerceadas pelo status quo, uma característica em si positiva e poderosíssima, mãe da criatividade. É entretanto importante não confundir tal semelhança com o mito de que criminosos equivalem a grandes empreendedores ou grandes líderes, conforme sugeriu o personagem Michael Corleone em filme que todos conhecemos. Grandes indivíduos são sofisticados o bastante para encontrar um infinito de possibilidades dentro das regras do jogo, ou ao menos precisamos acreditar totalmente nisso.
Há por outro lado o ditado que diz que ocasião faz o ladrão, o qual hora parece falso (ocasião apenas revelaria o ladrão), hora só parece falso quando não mergulhamos suficientemente fundo na complexidade humana.
De toda forma, o dilema tende ao irrelevante com um trabalho paterno bem feito na infância. Mas cautela: tendência não é garantia.
Em tempo: uma ida a qualquer restaurante num sábado, em que pais ignoram seus filhos por estarem “ocupados” no celular, sugere que a roleta russa dos checkpoints secundários da vida – organizados por algoritmos que vendem dopamina – decidirá caso a caso o destino de cada um.
Tal aliás como sempre foi a realidade de famílias mais pobres, com mães solteiras com pouco ou nenhum tempo ou outros recursos e habilidades para persuadir seus filhos.