regras de convívio tornaram-se rocket science
Muito frequentemente na vida todos nós, indivíduos ou grupo de amigos, empresas ou países inteiros, entramos em apuros desnecessários graças ao comum expediente de reagir-se a questões complexas recorrendo a respostas simples. O complexo tem sempre muitas camadas, fáceis de serem omitidas, ao passo que o simplismo reduz o problema ao âmbito da camada que gere os mais rápidos gatilhos de reação. Ao jeito de se fazer política abusando deste algoritmo biológico – que tem ótimas razões para existir, mas têm esse efeito colateral – chamamos de populismo, por exemplo.
Ainda assim, cabe todavia o esforço para discernirmos entre simples e básico. Num mundo complexo, não é nada simples manter-se orientado pelo básico, sem perdê-lo de vista. Mas no limite da complexidade em nossos embates, leva vantagem sempre quem percorre o caminho de volta ao básico mais facilmente, numa espécie de engenharia reversa assimilada.
Poucas biografias encarnam melhor tal princípio do que a do lutador Roger Gracie. Num dos esportes mais competitivos do planeta, Roger conquistou quatorze títulos mundiais jogando o básico com maestria. Assim como na vida, é comum no jiu jitsu assistirmos faixas azuis recorrendo a golpes complexos, por vezes com sucesso e outras nem tanto. Mas numa final de Mundial na faixa preta, com tão pouco espaço a aventuras, é tipicamente o golpe básico, aquele disponível nas aulas introdutórias da faixa branca, o que realmente decide tudo.
Com isso em mente, vale refazer-se a tentativa de entendimento aos grandes fenômenos sociais hoje em voga no Ocidente, como o movimento woke, cujo significado flutua ao sabor da orientação ideológica de quem o explica, mantendo-se em comum apenas a conotação pejorativa. Que diabos é isso, afinal? Mais ainda: que prepotência é essa desse tal Elon Musk (e outros da turma tech), que acusa a tradicional indústria da informação e comunicação, o jornalismo, de não mais entender sequer o que seria liberdade de expressão, por ser “woke“?
Longe de ser um Roger Gracie das ciências sociais, segue mesmo assim minha impressão.
Primeira questão: que diabos?
Para começar, quem em algum momento cursou uma aula formal de “Introdução a Economia” topou com algo mais ou menos assim:
“Economia Normativa vs Economia Positiva
A visão normativa tem como foco a ideia de como as coisas devem ser idealmente. Ela é baseada em valores, princípios e ideais que servem como padrões ou critérios para avaliar as coisas e o comportamento humano.
Já a visão positiva (empírica) foca na observação e na experimentação. Ela é baseada em fatos e evidências, buscando entender o mundo como ele é, na prática, de maneira objetiva. A visão empírica tenta evitar juízos de valor e se baseia apenas na realidade concreta.”
A distinção acima é tão óbvia quanto importante. Precisamos das duas visões, e precisamos também distingui-las. Mas enquanto tal tarefa é geralmente fácil em momentos de marasmo e paz, torna-se demasiada arisca em momentos de revoluções tecnológicas rápidas e avassaladoras, com as devidas tensões e ansiedades sociais que as transformações geram.
Estamos num desses momentos: na última dúzia de décadas, auferimos mais progresso material e transformações tecnológicas do que na história humana inteira anterior; e na última dúzia de anos, quando redes sociais em smartphones desbancaram por completo catedrais e gargalos de vozes, tudo parece ser só um assustador começo, sabe-se lá de que.
Medo? Pois é. Daí que o medo está para o cérebro assim como o modo emergência está para outros softwares: seus outros racionais ficam suspensos.
Assim, em essência, wokeness vem do medo, e seria, em primeiro lugar, o hábito de borrar a diferença entre normativo e empírico:

EXEMPLO: “Se ele sublinha A, é porque no fundo lamentavelmente acredita em A’1, o que não podemos permitir que se alastre.“
Isto é, trata-se da perda de capacidade de ouvir falas empíricas sem a certeza (por conta e risco) de que carregam ameaças veladas ao normativo que mais prezamos. Que normativo? Democracia, justiça social e outras conquistas recentes. Experimente o amigo leitor postar frases politicamente incorretas ou apenas mal formuladas, em relação a alguma dessas conquistas.
Embora o fenômeno seja agnóstico entre esquerda ou direita, na era atual veio primeiro pela esquerda, em reatividade ao ressurgimento cíclico da mera reapresentação da direita, que andava dormente.
Não há exemplo mais notório do que a eleição de Donald Trump nos EUA, em 2016. Em outros tempos, Trump teria sido só mais um aventureiro populista. Ali, entretanto, deu a todos o álibi que todos precisavam, especialmente a sua maior oposição, a imprensa, que incorporou o que seria wokeness, em segundo lugar: resistir e destruir!
“Sim, estamos perdendo terreno para redes sociais e vozes independentes, porém agora não somos apenas informadores, mas sim a resistência ao nazismo. Se puder nos ajudar a salvar sua democracia, assine nosso jornal com três meses grátis.”
Em pouco tempo, tanto pivôs dos embates (Trump, digamos) quanto aqueles que por eles se representam sentem-se ainda mais relegados, e sobem o tom em contrapeso. Assim, em algum momento o medo woke se auto realiza em profecia, graças a si mesmo.
Não arriscaria aqui a apontar em que estágio estamos deste processo. Deixemos Bastilhas de lado neste texto.
O importante é que, em suma, wokeness seria viver segundo a premissa que seus vizinhos não são iluminados como você, e é preciso protegê-los a qualquer custo de certas e terríveis ideias e retrocessos, que nos ameaçam por aí. Pois primeiro, nada que se diz numa guerra é somente factual, tudo é agenda. Segundo, é preciso resistir e lutar.
Fundamentalmente, parece ser somente tudo isso.
A segunda questão, do bilionário prepotente
Bem produtivo ao presente exercício é, também em reverso, remeter a derivada que ganhou protagonismo próprio: o debate acerca da liberdade de expressão ou, melhor dizendo, da falta dela, segundo Musk e alguns.
Ocorre que, como dito ao início, problemas complexos têm muitas camadas, e Musk e essa turminha geek ganham a vida estudando justamente a camada computacional que alterou as leis de incentivo nas outras camadas, ao contrário de juristas e opinião pública educada que, como se diz, escutam o galo cantar, mas não sabem bem de onde.
Novamente pelo básico, quem em algum momento cursou uma aula de “Introdução ao Direito” topou com algo mais ou menos assim:
“Direitos Negativos vs Direitos Positivos
Direitos Negativos – Impõe ao Estado o dever de NÃO INTERFERÊNCIA na vida dos indivíduos. O Estado deve se abster de ações que restrinjam liberdades individuais. Exemplos: liberdade de expressão, liberdade religiosa, direito à propriedade, etc.
Direitos Positivos – Impõe ao Estado o dever de INTERFERÊNCIA, isto é, de fornecer meios para que o direito seja exercido. Exemplos: direito à saúde, direito à educação, segurança, etc.
Complementaridade: Ambos são importantes para a construção de uma sociedade justa e democrática.
Tensão: Em alguns casos, pode haver uma tensão entre direitos positivos e negativos, como por exemplo, quando a garantia de um direito social (positivo) exige alguma limitação de uma liberdade individual (negativa).”
Em suma, esta seria a fotografia básica (e antiga) que todos conhecemos. Por ela, é fácil inferir que o direito negativo é soberano, mas só vai até onde não atropele outro. Por exemplo, apologia ao nazismo não é direito e sim crime, se atropela o direito positivo básico da integridade de terceiros. Não há dúvida sobre isso. Mas não é esse o ponto!
[PARÊNTESE: Algum jornalista acha mesmo que um sujeito capaz de em tão pouco tempo reorientar a industria automotiva global por completo, apostar todo o patrimônio na construção e lançamentos de foguetes que voam a Mach 25, levar civis e internet ao espaço ou pousar foguetes de volta, construir e implementar chips BCI em humanos, etc, etc… não seria mesmo capaz de entender algo tão básico da vida moderna?
O curioso desta pergunta é que a resposta é sim! Orientados somente por headlines e resenhas rasas, milhões de boas almas acreditam exatamente nisso. E nesse falso debate, cabe exatamente a definição do fenômeno wokeness: o medo que desliga o racional da sociedade.]
O grande problema atual é que, com o advento da digitalização das sociedades, o enquadramento da liberdade de expressão apenas como direito negativo deixou de ser verdadeiro. Pois no mundo digital, o indivíduo diz, e a plataforma amplifica, ou não amplifica (ou mesmo tira o som), segundo seus próprios critérios normativos.
Pelo contrato social e por lei, entretanto, a única plataforma que poderia fazer isso é o próprio Estado, não uma big tech privada. Em outras palavras, no ambiente feudal das plataformas digitais, liberdade de expressão passou a ser também objeto de direito positivo, mas a sociedade (e a lei) ainda não assimilou tal transformação. Este ponto foi a motivação de Musk para embarcar na aventura de comprar o Twitter. Na verdade, seu pleito não é pela liberdade individual irrestrita, mas sim o exato oposto: é preciso que somente o Estado, que é a própria sociedade organizada, regule os limites de expressão. Do contrário, o vácuo de poder é preenchido por alguém não autorizado (feudo com viés próprio).
Não cabe aos funcionários de uma big tech, segundo suas interpretações normativas próprias em batalha contra o mal, promover ou boicotar isso ou aquilo, numa era politizada em que não sabemos mais sequer discernir entre fato empírico e ato normativo. Mas era exatamente o que acontecia no antigo Twitter, conforme deixam claros os “Twitter files” hoje online.
[ OUTRO PARÊNTESE: Aqui vale um outro recap histórico, que é complexo mas tentarei resumir. Nos EUA, quando a internet começou a decolar e naquele espírito de ferramenta para todos, em 1996, um marco regulatório conhecido como Section 230 isentou as plataformas de responsabilidade pelo conteúdo criado por seus usuários. Afinal, se o Hotmail tivesse que se responsabilizar pelo que as pessoas escreviam nos emails, ninguém o forneceria.
Este espírito funcionou bem por um tempo, promovendo inovação e novos serviços. Mas humanos são terríveis, sabe como é. Na década de 2010, com as redes sociais, vieram as fake news, as pessoas ficaram nervosas e o clima mudou. Legisladores passaram a intimar empresas como Twitter e Meta, capazes de filtrar o debate social e logo a ideologia coletiva, afim de entender como seus algoritmos operavam.
Tipicamente, as empresas se defendiam recorrendo a Section 230, e alegavam (ainda alegam) que não controlam o mercado de ideias, apenas o viabilizam. Em outras palavras, dizem ser platformas técnicas e não editoras publicantes, apesar de editarem o que vai na timeline do usuário.
Por um lado, há quem diga que se o jornaleiro da banca escolhe o que fica na vitrine e o que fica obscuro, embaixo de um saco preto, ele orienta o que as pessoas da rua (crianças, por exemplo) consomem. Por outro, há sempre o argumento do jornaleiro de que na vitrine vai apenas o que se vende mais, sucessivamente. E vale o Nobel de Economia a resolução deste embate.]
Por último, aproveitando o tema, não custa comentar a posição do X. em seu imbróglio brasileiro atual. Para a opinião pública, um afronto ao sistema judiciário nacional. Para a empresa, o oposto: um apelo teste ao sistema judiciário brasileiro em si, a partir da impressão de estarem sendo amassados por um ator que age em desacordo da lei, ainda que Ministro do Supremo.
Ainda que eventualmente estejam enganados, a ousadia não é um afronte ao país. Imagine o amigo leitor ser parado por um guarda policial num local remoto de um país estrangeiro, e ter a nítida interpretação que este está a achacá-lo. Agora, imagine passar por isso sendo alguém com grande influência midiática, e sabendo que a mera exposição pode ajudar terceiros que não teriam como se defender.
Infelizmente, Musk não se expressa tão bem quanto trabalha, e hipoteca o ritmo de sagas transformadoras para a humanidade (a corrida espacial e o salto científico em sua esteira, a mudança da matriz energética, a robótica…) nessas brigas. Mesmo assim, por linhas tortas, seus fundamentos estão lá, e trazem questões pertinentes.
Numa era de transformações, ansiedades, caos e gatilhos demais, não chega a surpreender que a turma do rocket science seja capaz de resgatar fundamentos sociais em engenharia reversa, de forma muito mais lúcida do que tantos poetas, sempre e somente a espreita.