No setor privado, receitas malucas são o caminho sensato
Bruno Pesca
(2020)
Em 2010, estive pelas fronteiras de Puntland, a área do território somali então controlada por piratas. A Somália era um país que há muito tempo não existia, o que existia eram três territórios distintos, um dos quais (Somalilândia) razoavelmente organizado e democrático, razão pela qual fomos lá (filmávamos uma série documentário-aventura para a TV a cabo). Na época, não havia como pensar em Somália sem pensar em piratas. Já na escala anterior, em Djibouti, era ostensiva a presença de fragatas de marinhas das maiores potências ocidentais, ali tentando coibir a pirataria que sequestrava navios cargueiros no Golfo de Aden, passagem obrigatória do comércio internacional via Canal de Suez.
Ainda em Djibouti City, no hotel, recebi um insight assustador. Não havia wi-fi, e o Sheraton dispunha de um único computador, ao lado do bar, para que os hóspedes checassem seus e-mails. Ao sentar-me em frente a ele, um senhor bêbado apareceu e ordenou-me que saísse, pois queria usá-lo. De reflexo, sugeri que aguardasse sua vez, tal como fiz, e recebi a resposta de que se não levantasse em cinco segundos perderia a vida ali mesmo, pois nenhum dos presentes, alegou (apontando para tropas alemãs que lotavam o bar), teria jurisdição para prejudicá-lo. Era ninguém menos que o embaixador da “Somália do Sul”. Recorrendo às lembranças infantis do velho Didi Mocó, respondi que atender um pedido com tamanha gentileza seria um enorme prazer, e ainda lhe limpei o assento com um guardanapo de pano. Afinal, em Mogadishu, infelizmente, uma bagagem humanamente heterodoxa fazia-se necessária para alguém ter escalado no poder (o sujeito era um matador).
O insight: se mesmo para um diplomata naquele ambiente o desdém pelas forças ocidentais chegava a tal ponto, como um desfile de poderio bélico no mar intimidaria milhares de piratas pulverizados em barquinhos e armados até os dentes?
Não intimidou. No ano seguinte, em 2011, foram 234 cargueiros sequestrados na costa somali, num prejuízo estimado de U$6.6bi.
E a mágica acontece
Quase dez anos depois, em 2020, o problema está praticamente erradicado. Em 2018, último ano de ataques relatados, foram somente três. A pirataria na região evaporou. E embora a ostensiva atuação militar estrangeira fosse na época receita consensual que certamente tenha se provado positiva, não foi a única – ao que parece, não foi sequer a maior – causa do milagre.
Enquanto países membros da OTAN decidiram pelo consenso óbvio (e caro) de enviar tropas à região, um grupo pequeno e privado de cidadãos dinamarqueses, na mesma época, foi mais perspicaz. Analisando o problema, ofereceram uma solução marota e específica, que viria a mudar radicalmente a história: gelo.
Sim, para erradicar a pirataria, bastaria que a população local pudesse fabricar e armazenar gelo.
Dessa forma, voltariam a pescar.
Ocorre que o país tem uma imensa costa marítima, mas desde 1991, com a Guerra Civil, a população masculina inteira precisou pegar em armas e dar as costas para o mar. Formou-se então uma geração proficiente em fuzis, mas que literalmente não sabia pescar. Com a introdução de coolers e estocagem no gelo, de forma que pudesse ser comercializado fresco, o preço de venda do peixe saltou quatro vezes para o pescador. Daí, o incentivo para as novas aulas foi gigante.
Todo este processo educativo foi engendrado pelos amigos dinamarqueses, através da ONG Fair Fishing. Na medida que foram ganhando escala, a pirataria foi sumindo. O custo? Alguns poucos milhões, menos do que apenas manter as tropas morando no Sheraton. Funcionou.
No Brasil, polos sem gelo
Em meio a tanta polarização política, algo que une todos no mesmo discurso é a necessidade de maiores investimentos em educação. Felizmente e ao menos isso, educação é há muito tempo consenso indiscutível. Quer apaziguar o papo com seu amigo “comunista” ou afagar seu tio “fascista”? Diga que precisamos investir mais em educação. Bom. Mas e daí? Tirante dezenas de iniciativas louváveis aqui e ali, irrisórias diante do tamanho do problema nacional da desigualdade no ponto de partida da vida, de que isso de fato adiantou?
Um problema dos diagnósticos inquestionáveis é que tendem a redundância. Donos de cachorro dizem que falta lealdade e amor verdadeiro entre humanos, mas empreendedores sociais e formuladores de políticas públicas precisam de planos de ação baseados em observações bem mais específicas que isso, se trabalham com objetivos mensuráveis e recursos limitados.
Neste particular, a história da erradicação dos piratas somalis é altamente sugestiva.
Economistas cariocas, mesmo aqueles que não passaram (meu caso) pela PUC-RJ, conhecem (ou deveriam) a solução do Prof. José Márcio Camargo para que a cidade capitalize finalmente sua vocação (turismo e entretenimento), volte a reter riqueza e de quebra ainda faça uma colossal redistribuição de renda. Basta despoluirmos a Baía de Guanabara. Dessa forma, empresas retornam de São Paulo para a maravilhosa orla portuária (porto de carga sai da baía), a cidade para de fugir de si mesmo (em direção à Barra) e os pobres do Grande Rio usufruem de área nobre.
Mas em relação mais especificamente, digamos, à educação, que outras soluções mais pontuais e mais baratas estariam acessíveis hoje para implementação por agentes privados, indignados com o descaminho da cidade? Como criamos uma plataforma inteligente que aponte que peça simples e barata falta em cada situação, de forma a engendrar desenvolvimento?
É provável que num futuro próximo a inteligência artificial responda isso, perfeitamente. Por enquanto, porém, resta-nos a maneira antiga, isto é, curiosidade e conversa.
Invadindo consensos
Freud definiu o capitalismo como a exploração do homem pelo homem. O comunismo, alertou, é o exato contrário. A partir da piada, peço licença aos amigos paulistanos e aproveito o momento eleitoral para polemizar um pouco.
Imagine por um instante que um dos candidatos a prefeito neste segundo turno fosse a fiel representação do poder de transformação social do setor privado, alguém no perfil Silicon Valley. Lembro aí que o traço principal daquele ambiente, pelo menos na definição romântica habitual, não é a criação de empresas bilionárias (mito) ou monopólios de nichos através de tecnologia (derivada). A peculiaridade da mentalidade do Valley, que cria tanto ONGs quanto unicórnios, é desafiar o status quo não assumindo como fixa nenhuma variável, frequentemente nem mesmo a lei (vide Uber e Airbnb), em suas empreitadas idealistas. Com ambições sempre disruptivas e cataclísmicas, empreender seria atender a um chamado de vida, e não procurar lacunas lucrativas.
Se o amigo leitor reparar bem, o histórico de empreendedor social de Guilherme Boulos (ao contrário de sua própria retórica estatizante e economicamente analfabeta) encaixa-se até melhor que o de Travis Kalanick nesta definição. Filho da classe alta da Zona Sul de São Paulo, ele saiu de casa ainda adolescente para morar na periferia e ajudar os mais miseráveis da desigual megalópole, de forma a tentar significar sua própria vida. E nunca mais voltou.
Se o movimento dos sem teto fosse um aplicativo que identificasse ativos imobiliários inoperantes pertencentes ao setor público, e nele alocasse cidadãos em situação emergencial de total vulnerabilidade humana, comunicando-se ao público por dialética menos ofensiva e mais cativante, propondo parcerias ao invés de demonizações do capitalismo, etc, talvez fosse percebido de outra forma (e fosse ainda mais eficiente). Embora aproveitadores existam em tudo, longe de ser o que atesta a biografia de Boulos, que está correto ao dizer que ninguém vive acampado em assentamentos porque quer, e que precisam sim da ação.
Consensos evoluem
Vale lembrar que o Bolsa Família, de início, popularizou a reação intuitiva e perfeitamente lógica (embora factualmente equivocada) de que se tratava de populismo raso que corromperia os incentivos econômicos dos pobres, desestimulando o trabalho. Tal noção foi totalmente desmentida pela observação dos dados e pela ciência (pergunte a Esther Duflo, do MIT, prêmio Nobel de Economia). A discussão dos sem teto tende a amadurecer pela mesma direção, mas por enquanto ainda obedece ao achismo ideológico apoiado em desinformação empírica, tanto quanto faz preconceituosamente, para tudo mais, o próprio Boulos.
E se por um lado sua visão deseducada e desastrosa sobre hipóteses que a humanidade já testou (vide planos analfabetos para a previdência e gestão da máquina pública) comprovam incapacidade para o cargo que almeja, por outro talvez o leitor ficasse surpreso se soubesse da semelhança neste aspecto com alguns igualmente admiráveis founders de unicórnios no Silicon Valley. O consequencialismo econômico dos projetos é muitas vezes ignorado, desde que a valor de face pareçam salvadores.
Felizmente, todavia, muitas vezes também são salvadores de fato no atacado, usando soluções sociais inéditas. Já as opiniões dos empreendedores sobre outros assuntos senão os de seus ofícios tendem a ter a mesma irrelevância relativa que nossas próprias opiniões como contribuintes quaisquer (a não ser que sejam candidatos).
Mesmo ideias ruins trazem bons insights
Verifica-se, por todos os lados, a expressão da mesma natureza: em questões que não conhecemos, retiramos a credibilidade dos outros se, sobre questões que já vimos, os flagramos dizendo bobagens. Precisamos de espirituosidade para irmos além disso, se não raramente o tesouro está no outro.
O ponto é que se você acha que já esgotou suas reflexões sobre um problema e mesmo assim ainda não tem a solução, é possível que esta seja uma figurinha repetida na mão de alguém intelectualmente distante. Por isso, precisamos baixar a guarda e abrir a mente para tudo e todos. Afinal, uma coisa que 2020 provou é que absurdos acontecem, queiramos ou não. Precisamos aceitar isso, e partir daí.
Se tivesse uma Fundação ou mesmo um fundo de investimento de impacto, estaria mais interessado em conversar com o Boulos após sua provável derrota do que após sua eventual vitória. Perda de tempo é continuar na bolha onde tudo já se vasculhou. Só quem entregará o detalhe de que não há gelo para os peixes é quem esteve na pescaria. Mesmo que fosse um pirata.
Nota sobre o degelo
Imagine um sujeito culto, ético, moderno e bem informado de 1770, que tivesse sido congelado por 250 anos e hoje acordasse. O que encontraria?
A democracia representativa, o sistema de três poderes; a liberdade feminina; os prédios, estradas e automóveis no lugar de cavalos; as invenções que nos permitem assistir um concerto musical de cinquenta anos atrás, falar instantaneamente com pessoas há 10.000km de distância e abraçá-los no dia seguinte; as respostas na palma da mão em segundos sobre questões que sequer havíamos ouvido falar.
Provavelmente o choque seria tão absurdo que sua cabeça explodiria.
Porém, para que um choque mais ou menos em mesmo grau acontecesse em 1770, não bastaria descongelar um cidadão europeu de 1520. Seria preciso voltar a 2.000a.C., ou algo assim. A Lei de Moore explica isso.
É altamente provável que o mundo daqui há trinta anos mude mais que de 1770 até aqui, e perfeitamente possível que tais mudanças tecnológicas nos levem a criação de outros pilares éticos, econômicos e sociais básicos por trás de cidadania e estados, tanto como de trabalho e renda. O singularity está próximo.
Se propriedade e capital são a mesma coisa, isto é, aquilo que o indivíduo tem para aportar na sociedade e assim se sustentar (força física e intelecto são o capital primordial), é fácil entender porque o capitalismo é inerente a natureza humana, e porque antigos sistemas políticos que subverteram tais direitos na força bruta (comunismo, colonialismo, feudalismo…) tiveram prazo de validade.
Ainda assim, não é óbvio que na próxima era do capitalismo a terra (diferentemente dos serviços que construímos sobre ela) siga ainda tratada como capital privado. Afinal, como o ar, o mar e qualquer outro recurso natural, é um ativo anterior ao próprio homem, e portanto de direito equânime a quaisquer de nossos descendentes ainda por nascer. As discussões internacionais sobre a exploração científica da Antártica dão pista disso, tal como a nascente discussão sobre economia espacial. Seria razoável que Elon Musk se declarasse proprietário de Marte em breve?
Parando para pensar, o tratamento histórico dado a este ativo (e outras heranças) sempre foi acima de tudo inercial (e a história começa no feudalismo), não a toa a gênese da aversão “ao capitalismo” no imaginário popular. Aversão a nós mesmos. A tecnologia oferecerá mais luz e alternativas.
Provocações finais
Se o brasileiro é mesmo tão criativo e acha suas cidades tão ruins, onde estão as discussões sobre novas soluções malucas?
Se toda obra inovadora e genial foi antes uma ideia maluca, de onde mais tiraremos noções inovadoras para nossos problemas sociais?
Onde está este departamento em sua empresa?
Assim como eu, não acham humilhante que tenha sido preciso que um gringo visitasse o Rio de Janeiro para que Radical Markets – a única proposta inovadora em décadas sobre atualização profunda do capitalismo – tenha sido escrito?
Se os 3% do PIB investidos em educação básica não bastam, como podemos nós mesmos, entes privados, ultrapassar ou ao menos dirimir a dependência estatal, fazendo como o grupo de dinamarqueses que superou a própria OTAN?
Não temos as respostas
São muitas as respostas que não temos, se moram longe dos consensos em que habitamos. Preguiça de buscar?
Às vezes, se gelo é tudo que se tem, a solução é apenas enviá-lo a outras mãos, ao invés de enxugá-lo.